Piketty e o espírito da época

Piketty nos adverte para que não nos deixemos iludir pela aparente estabilidade e prosperidade que foi a experiência comum das economias avançadas durante umas poucas décadas na segunda metade do Século XX. Segundo a narrativa de Piketty, são as forças promotoras de desigualdade e desestabilizadoras que podem ser as dominantes no capitalismo”, afirma Dani Rodrik, professor de Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados, em Princeton,Nova Jersey, em artigo publicado no jornal Valor, 15-05-2014.

Segundo ele, “Capital in the Twenty-First Century” reacendeu o interesse dos economistas na dinâmica da riqueza e em sua distribuição – um tema que preocupou economistas clássicos como Adam SmithDavid Ricardo e Karl Marx. O livro colocou em debate público detalhes empíricos cruciais e um arcabouço analítico simples, porém útil. Quaisquer que sejam as razões de seu sucesso, já deu uma contribuição inegável, tanto para a ciência econômica como para a discussão pública”.

Eis o artigo.

Onde quer que eu vá e seja lá com quem me encontre, atualmente, perguntam-me a mesma coisa: O que você acha deThomas Piketty? São, na realidade, duas perguntas numa só: O que você acha de Piketty (seu livro), e o que acha dePiketty (o fenômeno)?

A primeira indagação é muito mais fácil de responder. Por pura sorte, fui um dos primeiros leitores da versão em inglês de“Capital in the Twenty-First Century” (o capital no Século XXI). A editora de PikettyHarvard University Press, enviou-me as provas finais, na esperança de que eu contribuiria com uma sinopse para a contra-capa. Eu o fiz com satisfação, pois considerei notáveis a abrangência, profundidade e ambição do livro.

Eu tinha, certamente, familiaridade com o trabalho empírico de Piketty sobre distribuição de renda, empreendido comEmmanuel SaezAnthony Atkinson e outros. Essa pesquisa já havia produzido novas descobertas alarmantes sobre o aumento das rendas dos super-ricos. A pesquisa havia mostrado que a desigualdade em muitas economias avançadas atingiu níveis não vistos desde o início do século XX. A investigação, em si mesma, foi um feito brilhante.

Mas o livro é muitíssimo mais do que trabalho empírico, e constitui uma interessantíssima narrativa acauteladora sobre a dinâmica da riqueza sob o capitalismo. Piketty nos adverte para que não nos deixemos iludir pela aparente estabilidade e prosperidade que foi a experiência comum das economias avançadas durante umas poucas décadas na segunda metade do Século XX. Segundo a narrativa de Piketty, são as forças promotoras de desigualdade e desestabilizadoras que podem ser as dominantes no capitalismo.

Talvez mais do que o argumento propriamente dito, o que torna “Capital in the Twenty-First Century” uma ótima leitura é a sensação de assistirmos um embate de uma mente soberba com as grandes questões de nosso tempo. A ênfase dePiketty na natureza política da distribuição de renda; seu sutil vai-e-vem entre as leis gerais do capitalismo e o papel desempenhado pelo acaso; e seu empenho em oferecer ousados (ainda que, para muitos, impraticáveis) remédios para salvar o capitalismo de si mesmo, são tão novos quanto raros para um economista.

Por isso, eu teria gostado de dizer que pude prever o enorme sucesso acadêmico e popular que o livro teria ao ser publicado. Na realidade, a recepção ao livro foi uma grande surpresa.

Por um lado, a obra dificilmente pode ser considerada de leitura fácil. Tem quase 700 páginas (incluindo as notas) e, embora Piketty não dedique muito espaço a formalizações teóricas, ele não se abstém de incluir uma equação ocasional ou letras gregas ao longo do texto. Os críticos deram muito realce às referências de Piketty a Honoré de Balzac e Jane Austen; entretanto, o fato é que o leitor encontrará principalmente a prosa seca e estatísticas de um economista, ao passo que as referências literárias são poucas e esparsas.

A reação dos economistas não foi uniformemente positiva. O argumento do livro gira em torno de uma série de identidades contábeis que relacionam poupança, crescimento e retorno do capital à distribuição da riqueza em uma sociedade. Piketty é exímio em trazer essas relações abstratas à vida ao associar números reais a elas e ao identificar sua evolução ao longo da história. Mas essas relações são bem conhecidas dos economistas.

O prognóstico pessimista de Piketty repousa sobre uma pequena extensão desse arcabouço contabilístico.

Com base em pressupostos plausíveis – a saber, que os ricos poupem o suficiente – a proporção entre riqueza herdada e renda (ou salários) continua a crescer, desde que r , a taxa média de retorno do capital, exceda g, a taxa de crescimento da economia como um todo. Piketty argumenta que essa tem sido a norma histórica, exceto durante a tumultuada primeira metade do Século XX. Se é assim que se nos apresenta o futuro, estamos diante de uma distopia na qual adesigualdade crescerá a níveis nunca antes vividos.

Mas, em economia é perigoso extrapolar e as evidências que Piketty apresenta para sustentar seu argumento são pouco conclusivas. Como muitos têm argumentado, o retorno do capital, r, pode muito bem começar a declinar se a economia tornar-se muito rica em capital em relação ao trabalho e a outros fatores, e se a taxa de inovação diminuir. Alternativamente, como outros já apontaram, a economia mundial pode ganhar velocidade, impulsionada pela evolução do mundo emergente e em desenvolvimento. A visão de Piketty precisa ser levada a sério, mas não pode ser considerada lei absoluta.

Talvez a fonte do sucesso do livro deva ser buscada no “zeitgeist“. É difícil acreditar que a obra tivesse produzido o mesmo impacto há dez ou mesmo cinco anos, na esteira imediata da crise financeira mundial, apesar de argumentos e provas idênticas pudessem ter sido arrolados naquele momento. Uma inquietação sobre a crescente desigualdade vem se acumulando há algum tempo nos EUA. A renda da classe média continua estagnada ou em queda, apesar da recuperação da economia. Parece agora aceitável falar da desigualdade nos EUA como a questão central com que se defronta o país. Isso poderia explicar por que o livro de Piketty tem recebido maior atenção nos EUA do que em sua França natal.

“Capital in the Twenty-First Century” reacendeu o interesse dos economistas na dinâmica da riqueza e em sua distribuição – um tema que preocupou economistas clássicos como Adam SmithDavid Ricardo e Karl Marx. O livro colocou em debate público detalhes empíricos cruciais e um arcabouço analítico simples, porém útil. Quaisquer que sejam as razões de seu sucesso, já deu uma contribuição inegável, tanto para a ciência econômica como para a discussão pública.

* artigo extraído do site http://www.ihu.unisinos.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: