A JUVENTUDE QUE OUSA LUTAR

*Guilherme Stein

*João Marcelo Pereira dos Santos

 

Desejamos provocar nos ativistas dos movimentos sociais uma reflexão sobre a juventude que animou os protestos sociais no Brasil nos últimos meses. Precisamos fugir de clichês, do tipo: juventude de classe média, nós estávamos acordados, entre outros. Os dados indicam que o nosso país nunca teve uma quantidade tão expressiva de jovens, estima-se um pouco mais de 50 milhões. Nos próximos anos, essa juventude comporá a maior força de trabalho de todos os tempos da história do Brasil. Compreender esse fenômeno e traçar políticas para essa “nova classe trabalhadora” é algo estratégico para os movimentos sociais, particularmente, o movimento sindical. Malgrado as diferentes opiniões sobre os protestos, temos que ouvir a mensagem da juventude. Propositalmente, não tratamos nesse texto, as investidas que os setores do conservadorismo fizeram para disputar os rumos dos protestos. Essa questão será objeto do nosso próximo escrito.

 Os protestos ocorridos no Brasil no decorrer dos últimos dois meses não são acontecimentos isolados do contexto internacional[1]. Compreendê-los em escala global, traçar quadros comparativos para detectar similitudes, particularidades, tendências e até mesmo conexões, são desafios que se impõem aos militantes dos movimentos sociais interessados em reposicionar a luta por direitos no alvorecer desse novo século.

A juventude emerge como importante ator social na contemporaneidade. Trata-se de uma nova geração que experimenta grandes metamorfoses no mundo do trabalho. Que é massacrada por processos educativos sabidamente ultrapassados (crise do sistema educacional) e se depara com instituições políticas instrumentalizadas que colocam o poder e a distribuição de recursos à frente do diálogo e das razões públicas. Uma juventude que possui um desafio histórico duplo: construir novas alternativas de organização social frente à crise ambiental e econômica cada vez mais profunda do mundo capitalista, em um contexto de “deserto utópico”. Em grande medida, esse desafio é colocado na identificação das fragilidades do sistema e na articulação de discursos e práticas que superem o caráter totalizador das antigas utopias, exacerbando a necessidade de mais democracia ao ponto de questionar, inclusive, as concepções clássicas de democracia.

É importante perceber que os movimentos da juventude trazem consigo não um grito de desespero frente às crises da sociedade moderna, mas sim um apreço pela novidade: novas formas de organização produtivas, de relações de gênero e familiares, de fazer política, de produção artística, de relação com o meio ambiente. Esse novo é em si mesmo diverso e complexo.

Notamos que os movimentos sociais realizam uma leitura simplória do fenômeno da juventude. É comum encontrarmos visões do tipo: os jovens são apáticos, conformados e indispostos; são freqüentadores de um universo fantasioso e alienante da virtualidade (internet); não entendem as nossas mensagens; são destituídos de memória histórica, por isso ignoram o quanto sofremos para garantir o atual patamar de direitos; são individualistas e incapazes de defender causas sociais mais amplas; só se mobilizam por interesses próprios, imediatos e pueris.  Essa visão adjetivada da juventude explica, nesse momento, a nossa dificuldade em decifrar as vozes das ruas.

A pior análise é rotular os protestos como movimentos de “juventude de berço esplêndido, que acordou agora para fazer a sua pseudo-revolução e ter o que postar no facebook”. Também não é correto classificá-los como movimentos que vocalizam os descontentamentos de uma classe média enciumada com a ascensão dos de baixo. O mais intrigante é entender como os protestos criaram um centro gravitacional capaz de estabelecer algo em comum sem silenciar a enorme pluralidade da juventude. Como conseguiram dar coesão, mesmo que de forma frágil e efêmera, a agrupamentos e individualidades tão diversificadas?

Em Porto Alegre[2], os primeiros a se manifestarem não foram os jovens excluídos e não engajados em formas de ação política, foram os ativistas com algum nível de experiência política e organizativa. Na falta de um conceito melhor, chamo-os de jovens de “vanguarda”.  É importante observar que a vanguarda não é apenas em relação à política, ela se expande para o campo estético (teatro e música) e para estilos de vida. Esses jovens ativistas transitam no universo artístico, participando de grupo de teatro e música, experimentam formas alternativas de moradia, adotam estilos de vida mais sustentáveis, organizam-se em rede e desenvolvem novas formas de financiar suas atividades (acesso a recursos de políticas públicas, organização de eventos culturais, moedas próprias, crowd-fuding, selos de música independente, pequeno comércio alternativo). Antes de se transformarem em movimentos de multidão, passaram algum tempo elaborando suas criticas, testando formas de ação e suportando a solidão do isolamento, algo comum a toda vanguarda.

Nessa primeira fase de construção dos protestos esses jovens ativistas agiram de maneira “que a forma era o conteúdo e o conteúdo a forma”. A linearidade organizativa, a relativização da figura do líder, a autenticidade discursiva, a prática militante multidimensional, a simplicidade, a linguagem direta, as marchas abertas com coreografia descentralizada e sonoridade própria, a praça como lócus principal para elaboração de propostas e formas de ação. A própria reivindicação por espaços públicos ocorria nos espaços públicos. A crítica das instituições da democracia representativa foi feita ocupando-as, enchendo-as de cores e cartazes – no lugar das cores desbotadas – realizando debates intensos, dia e noite, sem o formalismo burocrático dos procedimentos, resultando em propostas concretas para políticas públicas.[3] A crítica à grande mídia seguiu a mesma direção: contra-informação de coletivos independentes e o combate ao monopólio da mídia comercial. Tudo isso foi fundamental para atrair simpatizantes e preparar o terreno para a segunda fase dos protestos. É preciso reconhecer que os protestos, apesar das imperfeições e contradições, experimentam uma cultura política diferente e isso é de grande importância para entendermos a sua capacidade de atração.

Em relação ao conteúdo, a primeira fase dos protestos focou no preço das passagens. Em algo palpável para uma parcela expressiva da população porto-alegrense. Utilizou-se de uma pauta concreta para escancarar as contradições do sistema de privatização do espaço público e das relações de favorecimento entre o poder político e o poder econômico. É extraordinário como uma questão especifica transbordou para outras esferas da economia e da política brasileira. Isso mostra o quanto é dogmática a nossa tradicional separação entre o especifico e o geral. Em um pequeno detalhe de uma luta concreta esconde-se toda uma cadeia de dominação, que quando revelada, torna o desfecho da luta surpreendente.

Ações em torno da questão do preço das passagens vinham ocorrendo em um crescente desde o inicio do ano[4]. Os protestos de abril chegaram a ter um pico de participação de algo em torno de 10.000 pessoas, resultando em revogação do aumento. No início de junho, os manifestantes voltam a se articular para realizar uma demonstração de apoio aos protestos de São Paulo, os quais estavam sendo alvo de grande violência policial. Desde então, as marchas foram crescendo em progressão geométrica até explodir com a participação de 20 e 30 mil pessoas nas ruas de Porto Alegre. Nessa fase de agregação de mais e mais simpatizantes é secundário uma caracterização do extrato social dessa juventude. Mas convêm colocar sob suspeita a afirmação que diz que “os protestos foram hegemonizados por jovens de classe média”. O próprio conceito de classe média precisa ser reposto no seu lugar de origem.[5] Apesar de não ser o objeto de discussão desse texto, ressaltamos que mesmo havendo mudanças na renda e nos modos de vida, dificilmente a categoria de “classe média” explica as novas dinâmicas e realidades da grande maioria dos trabalhadores brasileiros.

Para avançarmos na compreensão dessa nova geração também é necessário nos debruçar sobre o universo do trabalho. Ou seja, além de uma análise aprofundada sobre as mudanças no mundo do trabalho é preciso mapear os tipos de ocupação, a qualidade dos empregos gerados para juventude, a estrutura de remuneração, etc.

Os jovens em Porto Alegre, na faixa etária de 14 a 29 anos, correspondem a 30,1% da população em idade ativa.[6] A maioria dos empregos gerados é vinculada aos serviços (49%) e comércio (26%). No currículo ocupacional desses jovens consta a passagem por diferentes ocupações, 70% são demitidos antes de completar 24 meses de trabalho. Prevalecem os empregos no setor privado (72%) onde as relações de trabalho tendem a ser mais autoritárias. É bastante provável que no ambiente de trabalho sofram pressões tanto das chefias quanto de outros trabalhadores com mais tempo de casa e com rotinas de trabalho instituídas. Enfrentam uma jornada de trabalho semanal de 41 horas, o que dificulta conciliar estudo com trabalho, algo agravado com o aumento de horas em deslocamento.  A remuneração é um pouco acima do salário mínimo e recebem 37% a menos que o trabalhador adulto. A taxa de desemprego é maior na população jovem: na faixa de 18 a 24 anos, atingiu, em 2011, 15,6%. Esse percentual aumenta quando se analisa o desemprego de mulheres jovens.  Em que pese uma tendência de crescimento dos patamares de escolaridade, o censo de 2010 revelou que 36% dos jovens portoalegrenses (18 a 29 anos) ainda não concluíram o ensino médio e 16% sequer possuem o ensino fundamental[7].

É certo que encontramos jovens oriundos da “nova classe trabalhadora brasileira” nos protestos, alguns, inclusive, oriundos de famílias favorecidas pelas políticas de crescimento econômico e de inclusão social dos últimos anos. Arriscamos a afirmar que uma parte significativa desses jovens experimenta formas de inserção precarizada no mundo do trabalho. Para ilustrar cito o segmento dos estagiários. Tanto no serviço público como no privado se contrata exageradamente estagiários para realizar serviços precários, descolados das finalidades de aprendizagem e aperfeiçoamento profissional, com uma clara intenção de redução de custos. Uma parte da juventude que ingressou, ao anoitecer, nas marchas de protestos, antes, enfrentou uma jornada de trabalho em estações de call center, balcões de supermercados, lojas, escritórios, etc.

Mesmo os estudantes dedicados à vida universitária, para acessarem alguma bolsa estudantil, são inseridos em projetos de pesquisa submetidos a professores que utilizam do “trabalho braçal” de pesquisa para redigir seus textos, sem citá-los como coautores. Essa espécie de mais valia acadêmica é uma prática recorrente na universidade, instituição que aderiu docilmente aos padrões do produtivismo. Diga-se de passagem, os professores envaidecidos com o status quo, são criticados por essa juventude universitária politicamente engajada. É provável que a universidade esteja entre as instituições que não os representam.

É importante estar atento para o fato de que diversas políticas educacionais estão mudando o perfil dos estudantes e das universidades. Políticas de cotas, de ampliação de vagas e de criação de novos cursos vêm possibilitando o acesso de grupos subalternos às instituições de ensino superior. O ENEM e o SISU implicam em grande circulação de estudantes que saem de sua terra natal e de sua região de origem em busca de formação universitária. O PROUNI garantiu o acesso ás instituições privadas e mudou o papel dessas no sistema educacional. A criação de escolas técnicas e universidades federais leva o ensino à cidades e regiões nas quais praticamente inexistia a possibilidade de dar continuidade aos estudos após o ensino médio, se não houvesse renda o suficiente para se mudar para um grande centro. Muitos desses jovens quando deixam suas famílias enfrentam os limites da política de uma assistência estudantil que urgentemente precisa ser ampliada e diversificada. Quando se fala que são os jovens universitários os protagonistas dos movimentos de protestos, passa-se a impressão que são seres descolados de problemas do cotidiano decidem abraçam causas alheias, essa não é a realidade atual.

É preciso mencionar também a condição do jovem da periferia submetido à insegurança, à discriminação e ao assassinato. Esses são os jovens que enfrentam com maior realismo o cotidiano (na periferia as balas não são de borracha) e, certamente, olham o futuro com muito pessimismo. Parcela desses jovens ocupou as ruas e deixou uma mensagem, talvez a mais difícil de ser decifrada, porque foi associada à violência. Ainda sobre os jovens da periferia cabe registrar que a existência de programas sociais, bem como o trabalho de ONGs e de um certo novo associativismo da periferia motiva a participação e estimula o desejo de mudança. Provavelmente, os governos esperavam gratidão por parte dessa juventude, mas recebem críticas e mais demandas.

Os jovens de “classe média” também integram os protestos. Esses sofrem o fardo de reproduzir os padrões de condição de vida de suas famílias, nem sempre inscritas na sua vontade. Quando inseridos no mundo do trabalho, sofrem a decepção entre o que espera e o que encontra. Na realidade, sofrem o reverso daquilo que passa o jovem da classe trabalhadora, talvez com igual teor de decepção.

As condições objetivas da nossa juventude no trabalho, na escola e na família, assim como outras dimensões que estão situadas no campo da subjetividade e da sociabilidade são as chaves – não as únicas – para abrir as portas da explicação dessa onda de mobilizações no Brasil. Encerramos com a seguinte citação:

Mesmo não havendo espaço, aqui, para tecer maiores argumentações a esse respeito, podemos arriscar uma conclusão: responder com franqueza e humildade a essas questões, saber ouvir, verificar as deficiências e mensurar corretamente sua capacidade, refletir e buscar novas formas de organização, aproximação e integração social, novas plataformas de disputa política, não temer as ruas. Apenas por essa via passa a possibilidade de reconectar paulatinamente esses setores à “multidão”, conferir uma direção positiva à energia que ela suscitou, e assim, mesmo diante dos obstáculos erguidos pelos interesses diretos de uma minoria, impulsionar uma correlação de forças mais propícia às mudanças que tanto ansiamos[8]

 

*Estudante de economia e formador sindical.

**Estudante de história, formador sindical e assessor da CUT RS.

 

Porto Alegre, 13 de agosto de 2013.


[1] Ver texto anterior “Novo ânimo para renovar as nossas ferramentas de disputa de hegemonia”  no endereço: http://cutrs.org.br/wp-content/uploads/2013/08/Novo-ânimo-para-renovar-as-nossas-ferramentas-de-disputa-de-hegemonia.pdf

 

[2] Em que pese os protestos brasileiros terem algo em comum, pensamos que existem algumas particularidades locais que os distinguem. O nosso campo de análise é Porto Alegre e temos dúvidas se as nossas conclusões, fruto da nossa observação participante, podem se generalizar para outras capitais.

[3] Referimo-nos a ocupação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, no período de 11 a 18 de julho de 2013.

[4] Neste ponto, vale lembrar que praticamente todo ano há protestos em Porto Alegre contra o aumento da passagem e a favor do passe livre. Geralmente, a elevação da tarifa ocorre no mês de fevereiro, período de férias escolares e universitárias. No ano de 2013, esse aumento foi postergado para os meses subsequentes, o que facilitou o desencadeamento de grandes manifestações.

[5] Sobre esse tema recomendo um rápido artigo de Gustavo Venturi que pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.teoriaedebate.org.br/colunas/opiniao-publica/classe-c-e-luta-de-classes Quem deseja aprofundar, recomendo o livro de Marcio Pochmann Nova Classe Média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. Boitempo Editora, 2012.

[6] População em idade ativa é considerada a partir dos 10 anos de idade, sem limite superior.

[7] Conferir mais informações sobre trabalho e juventude em Porto Alegre no endereço: http://geo.dieese.org.br/poa/estudos/pesquisas_01_2013 Para mais informações sobre a juventude brasileira recomendo a leitura da pesquisa do IPEA, Juventude Levada em Conta, no seguinte endereço: http://www.sae.gov.br/site/wp-content/uploads/Juventude-Levada-em-Conta.pdf

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