Mensagem para o Brasil: Olimpíadas são um fracasso econômico

POR BOB FERNANDES, DIRETO DE LONDRES

Publicado no Blog do Bob Fernandes em 06/08/2012.

Espetacular, histórico Michael Phelps e sua coleção de vitórias e medalhas. De arrepiar, assistir Usain Bolt se tornando bicampeão e lenda com o estádio lotado a gritar seu nome em coro. Bela Olimpíada, a de Londres. Bela, mas que na sua última semana já pode enviar uma duríssima mensagem para o Brasil da Rio 2016 e da Copa 2014. A mensagem é esta:

– Os gastos são gigantescos, os lucros milionários não passam de uma ilusão e irão apenas para os de sempre, para quem já é muito grande, e em eventos desse porte o prejuízo econômico coletivo é, tem sido historicamente inevitável.

Aqui, como ai no Brasil, autoridades de todos o níveis fazem, fizeram desde o então primeiro ministro Tony Blair, em 2005, discursos otimístas, o me-engana-que-eu-gosto. Discursos que não resistem aos números, aos fatos, ao que se vê.

Os ingleses gastaram 9 bilhões de libras, uns R$ 30 bilhões para fazer sua Olimpíada. Agora, mesmo em meio ao orgulho por Jogos bem montados, as autoridades têm que se justificar, se explicar.

Aqui, como ai ou em quase todo lugar, as autoridades mentem. Mas quando mentem aqui são, quase sempre, desmentidos (e, importante, isso independe da cor partidária) e ridicularizados nas manchetes.

David Cameron, agora primeiro ministro, fala, constrangidíssimo, em um lucro final de “13 milhões” de libras, algo como R$ 42 milhões. Gargalhadas e deboche na mídia.

O prefeito de quando a cidade disputava os Jogos em 2005, Ken Livingstone, dizia que os Jogos seriam a “Regeneração” de Londres. Sebastian Coe, o Chefão do Comitê Olímpico Local falou todo o tempo sobre a “Olimpíada do lucro”.

Boris Johnson, o atual prefeito, delirou há duas semanas. Anunciou a expectativa de “um milhão de visitantes extras” por dia. No Guardian, o mais respeitado jornal londrino, um articulista resumiu assim o delirio do prefeito:

– Ele sabe que isso é lixo.

Mas, antes de focarmos apenas em Londres 2012, um mergulho em outros eventos de mesmo porte nos últimos tempos.

Foram feitas tomografias nas Olimpíadas de Pequim, Atenas, Barcelona e Atlanta. O Guardian define como “implacável” e “preventivo” um estudo nestas sedes feito pela Associação Internacional de Economistas e Esportes (IASE).

Resumo do durante e, em especial, do depois de Olimpíadas:

– Dívidas, estádios e parques vazios, desilusão posterior.

Segue o enterro:

– Um Estudo de Sydney feito pela Monash University da Austrália descobriu que não houve benefício tangível nenhum e nem “impulso econômico” a partir dos Jogos.

Título de um relatório da mesma IASE sobre a Olimpíada de Atlanta (EUA):

– Ouro de Tolo.

Leia um trecho do que foi encontrado nos despojos de Atlanta e pense no Brasil-brasileiro, onde, a se crer no que se lê, vê e ouve, o corrupto é sempre e apenas o outro; o outro partido, o vizinho, o guarda ou autoridade que recebe a propina. Está no relatório sobre Atlanta:

– Desvios de recursos escassos que poderiam ter uso mais apropriado e produtivo no combate às lentas taxas de crescimento econômico…

Aqui, como aí e em em quase todo lugar, autoridades repetem o mantra “legado, legado…”. Barcelona é sempre citada como um exemplo apenas positivo. De fato, o legado lá é evidente, mas há também o que revelaram os estudos:

– Os hotéis de Barcelona já tinham uma queda entre 50% e 80% apenas um ano depois dos Jogos. A prosperidade da cidade, que veio depois, é atribuida aos vôos baratos e ao posterior boom espanhol.

Pequim 2008, além do suntuoso elefante branco de tão saudosa memória, o Ninho de Pássaro para 95 mil espectadores, “não teve elevação nenhuma relacionada aos Jogos”, atestam os relatórios.

Copa do Mundo não é diferente, se não for pior diante da, digamos, qualidade das famiglias envolvidas no negócio.

Quem foi à Africa do Sul, viu e sabe. O Estádio de Johanesburgo para a Copa 2010 é outro elefante branco, assim como é um escândalo, e outro elefante branco, o belíssimo e bilionário estádio da Cidade do Cabo.

O Brasil, suas 12 sedes e a fiera de estádios e construtoras e “donos” da Copa e Jogos e etctera dispensam maiores análises. Por ora.

Voltemos às Olimpíadas.

Seria muito bom, talvez se evite o desastre se autoridades do Brasil derem atenção à advertência feita, ainda em 2006, num minucioso relatório para o European Tour Operators:

– O esporte leva a uma “notória e estreitamente focada” forma de viajar, sem repercussões no turismo de forma mais ampla.

Durante Jogos Olímpicos o destino dos visitantes costuma ser, especificamente, a Olimpíada e seus arredores.

Relata o Guardian:

– Mais irônico é o que disse Mitchell Moss, de como Nova York “ganhou” as Olimpíadas. Ele mostra como, ao perder os Jogos de 2012 para Londres, os recursos da cidade foram alocados para o Lower West Side e outros locais agora em expansão.

Tessa Jowell foi importante ministra de Tony Blair, batalhadora em favor dos Jogos em Londres. Em 2005, como argumento, dizia ela sobre o legado deixado para Atenas, Grécia:

– Atenas se tornou um lugar diferente, uma cidade mais limpa, mais brilhante, vibrante e moderna…

Como se sabe, em 2005 Atenas já estava à beira do precipício, e o custo dos Jogos, com escassos retornos para a sociedade, foi um empurrão até essa beirada. Como se sabe, a Grécia é hoje um pais humilhado e revoltado, de pires nas mãos.

E quanto a Tony Blair e Tessa Jowell? Ora, eles vivem bem, muito bem. Tony vive a flanar e faturar com palestras mundo afora. Tessa, recentemente foi tornada “Dama” britânica.

Com isso, voltemos a Londres.

Há uma semana o jornal Daily Mail publicou reportagem de página dupla. Manchete:

– Londres deserta.

O Guardian tem publicado reportagens, artigos e análises que atestam o fracasso econômico-financeiro dos Jogos. Destes, e de outros. Chovem números e depoimentos.

Bernard Donoghue, da associação das principais atrações turísticas, diz:

– Existem dois grupos de pessoas desaparecidas. Um, e isso está ficando claro, o dos visitantes habituais de Londres, assustados porque tudo ficaria caro. Outro, o dos britânicos e londrinos depois dos anúncios de que o transporte seria um pesadelo (NR: e que, por isso, seria melhor trabalhar e ficar em casa.)

Fato. Londres, que nessa época de verão costuma receber 300 mil visitantes, está recebendo 100 mil turistas. Os departamentos de estatísticas informam que nesse começo de verão caiu em 35% o número de visitantes das atrações turísticas tradicionais.

Nem seriam necessários os números. Quem vem a Londres mesmo de vez em quando sabe que a cidade está mais vazia, ao menos até o início dessa última semana de Olimpíada.

Depoimentos de um hoteleiro da TripAdvisor:

– O impacto negativo dos Jogos Olímpicos foi uma surpresa negativa para os negócios.

Do total de associações empresariais e de comércio; hotéis, restaurantes, teatros, pontos turísticos… vazam relatórios dando conta de uma queda média de 30%. Já se fala em uma ação conjunta contra o prefeito Boris Johnson.

Diz um articulista do Guardian:

– Estes homens estavam mentindo ou seus apparatchiks não se atreveram a dizer a verdade a eles.

Em meio à crise que derrete boa parte da Europa, a Inglaterra ainda vive seu momento patriótico, de orgulho com os Jogos. Mas já se sabe que para não ficar no crescimento zero, terá que crescer 1% nos dois últimos trimestres deste 2012.

Em longa análise no Guardian sobre os tais “legados” olímpicos e avidência do fracasso econômico-financeiro (para o todo das sociedades envolvidas em eventos como esse), Simon Jenkis termina com uma advertência para o Brasil:

– Londres não vai recuperar o custo dos Jogos Olímpicos, podem esquecer isso. Depois de ter gasto o dinheiro, devemos pelo menos descansar e nos divertirmos. Mas devemos parar de fingir…

No encerramento, a dura mensagem, a real para o Brasil:

– …As verdadeiras vítimas da falsidade de Londres, desse entorpecimento mental, serão os pobres e infelizes, os cidadãos do Rio em 2016. Eles realmente não podem pagar.

Simon Jenkis se esqueceu da Copa 2014.

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