Alguns cálculos simples – A Industria automobilística e o governo.

Luiz Bicalho *

Os dados impressionam: em 3 anos e meio, o governo praticou uma renuncia fiscal de 26 bilhões de reais para a indústria automobilística. E qual o retorno disso? Sem entrar em polêmica, a indústria alega que:

– enviou “somente” 14,6 bilhões de dólares a título de juros e dividendos para suas matrizes no exterior. Com o dólar valendo, em média, 1,7 reais no periodo, isso equivale a 24,82 bilhões de reais, ou seja, praticamente tudo o que o governo concedeu de “incentivo fiscal” foi na realidade remetido para manter as matrizes das montadoras (Volks, Fiat, General Motors, Ford, Renault, etc) no exterior. O governo brasileiro ajudou a manter a indústria automobilista da Alemanha, Itália, Japão, EUA, etc…

– O setor criou, com este “incentivo” 27.753 novas vagas de trabalho. Ao custo médio de 1 milhão de reais em termos de incentivos fiscais. Em outras palavras, é como se o custo para contratar cada pessoa fosse de 1 milhão de reais por 3,5 anos de trabalho, 42 meses de trabalho.

Esta conta merece ser feita: 42 meses de trabalho equivalem a 47 salários, considerando o pagamento do 13º salário e os 40% de adicional de férias. Assim, estaríamos contratando cada trabalhador a um preço de 21 mil reais! Considerando o INSS e o FGTS, estaríamos contratando cada trabalhador a um preço de 16 mil reais de salário bruto (na iniciativa privada ou no serviço público), aproximadamente.

Em outras palavras, o governo poderia ter usado este dinheiro para contratar, por exemplo, 54 mil professores para as universidades federais, ou 50 mil médicos para o serviço de saúde. Mas não, foi tudo usado para as indústrias, que contrataram operários com salário médio de 3 a 5 mil reais (a depender da região) e remeteram praticamente todo o valor recebido para as matrizes no exterior. Realmente, a política econômica deste governo de coalizão impressiona!

* Diretor da Delegacia Sindical  Rio de Janeiro do SINDIFISCO NACIONAL

Anúncios

3 Respostas

  1. Muito interessante esta publicação. Um outro fator, que talvez passe despercebido por grande parte da população, é que essa iniciativa de beneficiar a indústria automobilística vai exigir um enorme gasto governamental nas estruturas viárias, pois, a cada dia, as cidades estão mais congestionadas, piorando a qualidade de vida da população. Isso gera, até mesmo, reflexos econômicos: afinal, se “tempo é dinheiro”, que tal considerarmos o tempo perdido nos congestionamentos ocasionados por esse “derrame automobilístico” em cidades que não possuem estrutura para recebê-lo? Pode parecer exagero, mas vamos considerar a capacidade laboral reduzida de milhões de trabalhadores por terem dormido uma hora a menos a fim de, ultrapassando os congestionamentos, chegarem em tempo no trabalho, sem contar a hora perdida no retorno, no final do dia. Que retorno econômico haveria se essa(s) hora(s) perdidas fosse aproveitadas em alguma atividade econômica (que não necessariamente seria trabalho, mas estudo, lazer, entre outras)? Por fim, mais uma indagação: que impacto haveria se esse recurso fosse investido na formação de infraestrutura urbana de transporte (obras também gerariam empregos…semelhantemente à “construção” de automóveis)? São algumas observações de um leigo observador. Um abraço a todos. Parabéns pelas publicações que estão sendo postadas no “Justiça Fiscal”.

  2. Meu caro Bicalho, a quem respeito e admiro pela incansável militância em prol de uma sociedade mais justa (socialista):
    Eu não estou escrevendo para defender o Governo (Lula e Dilma), mesmo porque o assunto é muito complexo e, ao contrário do título, a conta não é simples.
    Escrevo pela preocupação de ficarmos repercutindo o discurso da direita (a matéria é do Estadão e as opiniões são dos liberais).
    O que aparentemente passa desapercebido na matéria é que os US$ 14,6 bilhões de lucros remetidos ao exterior apenas pela indústria automobilística, não pagou um centavo de Real em IR.
    Um grande e fraterno abraço.
    Wilson Torrente

  3. O governo ficou impressionado com o número de carros estocados nos pátios das montadoras, e o prejuizo das montadoras, e tomou uma providência: sacrificou o IPI. Atraídos pela ilusão do mais barato, muita gente que não tinha condições financeiras de comprar um carro resolveu aproveitar a ocasião. Muito bem, quais foram as consequências práticas para o povo brasileiro? Aumentou incrivelmente a quantidade de carros nas ruas já congestionadas, e aumentou também o número de inadimplentes, Grande parte do estoque que antes estava nos pátios das montadoras, agora está nos pátios das revendedoras. São os carros retomados daqueles que não conseguiram pagar. Parece que quem faz as leis não pensa que uma vez entradas em vigor as leis vão produzir as suas consequências logicas inevitáveis, Quanto ao congestionamento das ruas e estradas, poderia, se houvesse preocupação a respeito, haver uma solução ao menos parcial, inicialmente, com o melhoramento do transporte coletivo e o incentivo à construção de garagens, A solução total viria com medidas de mais profundidade. E quanto ao prejuízo das revendedoras? O governo vai dar uma isenção a elas também?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: