Desigualdade Econômica Não é Sustentável

O 1% do topo tombará sem uma classe média estável

Por Heather Boushey | 6 de Dezembro de 2011, Center of American Progress

O Presidente Obama herdou uma economia em virtual colapso, com perda de mais de 20 mil empregos por dia no mês que ele foi empossado. Mas os problemas foram muito mais profundos do que uma simples recessão. Muito antes da Grande Recessão de 2007-2009, as velhas regras do jogo – em que, se você trabalha duro e joga de acordo com as regras, você pode ter uma vida decente – tinham começado a ruir.

Na recuperação econômica dos anos 2000 – do pico em 2000 até perto do final de 2007 – a classe média (americana) não se beneficiou do crescimento da economia. Ao longo desse período, a economia cresceu cerca de 18%, quando medida pelo PIB, no entanto a renda média familiar caiu 0,6%. Acrescente-se que, ao longo das últimas décadas, com exceção dos anos de pleno emprego no final da década de 90, a economia americana se tornou cada vez mais desigual. A renda das famílias mais ricas cresceu a uma média de 1,2% ao ano entre 1979 e 2009, enquanto que as das famílias mais pobres caíram 0,4% ao ano.

O discurso conservador diz que a crescente desigualdade não é problema para a América, pois os ganhos daqueles no topo irão, eventualmente, recair sobre a classe média (o velho “efeito cascata”). Mas não foi o que aconteceu nas últimas décadas. Na realidade, aconteceu o inverso.

Uma economia sobrecarregada com riqueza no topo não é boa para o país ou para a economia. Desigualdade não é ruim apenas para os 99% que são deixados para trás; ela é, na verdade, a responsável por alguns dos maiores problemas que os americanos enfrentam hoje – alto índice de execuções hipotecárias com retomada de casas, alta taxa de desemprego e uma incapacidade de seguir adiante. É fundamental que revertamos essa situação.

Pegue, por exemplo, a bolha imobiliária dos anos 2000. Foi estimulada em grande parte por hipotecas “exóticas” que foram fatiadas, separadas e vendidas a investidores que pressionaram os preços das casas a alturas até então desconhecidas. E quando a bolha estourou, milhões de famílias americanas – sem culpa alguma, exceto sua decisão de comprar uma casa – ficaram com hipotecas maiores do que o valor de suas casas. Alto índice de retomadas das casas pelos bancos ainda infestam nossa economia.

O que é pouco discutido (até recentemente) é o papel desempenhado pela desigualdade em causar a Grande Recessão e a subsequente lenta recuperação que aconteceu inicialmente. A desigualdade tem crescido por décadas para a maioria dos americanos na forma de estagnação da renda para a maioria e na verdadeira explosão das rendas para aqueles no topo. Quando a renda parou de crescer, as famílias responderam trabalhando mais e se endividando mais. Como a ativista dos direitos dos consumidores Elizabeth Warren (com sua filha Amelia Warren Tyagi) documentou, a dívida dos americanos é o resultado direto de uma classe média enfraquecida. As famílias se endividaram para pagar as despesas, para cobrir os custos dos planos de saúde, para colocar o filho na faculdade e para comprar uma casa em um bairro com boas escolas.

O setor financeiro estava feliz demais para ajudar. Cada vez mais livre de regulamentação e cheia de dinheiro, Wall Street criou uma variedade de novas maneiras de criar e estender o crédito. Basicamente, a América não conseguiu um aumento e o setor financeiro disse: “Não se preocupe, companheiro, nós vamos lhe emprestar o dinheiro para pagar as contas”. Claro, a coisa toda era insustentável. Com isso, veio a Grande Recessão e, desde então, os americanos lutam diariamente para pagar as suas contas, mas nós podemos reverter esse rumo destrutivo – se entendermos o que estamos enfrentando.

Uma recente pesquisa dos economistas Michael Kumhof e Romain Rancière, do Fundo Monetário Internacional, mostra que os investidores estavam reciclando suas altas rendas em empréstimos, um processo inerentemente instável em razão da estagnação das baixas e médias rendas familiares. Como a demanda cai por causa da estagnação das rendas, aqueles no topo tiveram grandes incentivos para expandir o crédito para manter o poder de compra;  mas se a renda não se recupera, esse é, como nós temos visto, um sistema instável.

Wall Street também usou sua crescente riqueza para beneficiar o seu setor financeiro, não a nação como um todo. Pesquisa recente dos professores Atif Mian, Amir Sufi e Francesco Trebbi, da University of Chicago Booth School of Business, mostra que as maiores contribuições para campanhas políticas feitas pela indústria de serviços financeiros estão associadas a um aumento da probabilidade de votos para uma legislação que transfere riqueza dos contribuintes para este setor.

As altas rendas do pessoal das finanças lhes permitiu vender empréstimos aos 99% e comprar legislação que transfere riqueza dos contribuintes para eles próprios. E, além de tudo isso, essas mesmas “altas rendas” têm encorajado os melhores e mais brilhantes jovens a ingressar nas finanças ao invés de engenharia, medicina, magistério, áreas que aumentam nossa produtividade econômica.

Mas nós sabemos o que funciona para todos os americanos. Crescimento para todos nos mantém seguindo em frente. Os economistas do FMI Andrew Berg e Jonathan Ostry descobriram que a desigualdade está associada com resultados econômicos mais modestos. Eles examinaram quanto tempo períodos de crescimento econômico sustentável duraram em 174 países. O que eles descobriram foi impressionante: quanto mais igualitário o país, por mais tempo ele foi capaz de sustentar o crescimento econômico.

O que acontece aos 99% de americanos deveria ser o foco da política econômica de nossa nação. Porém, muito frequentemente, isso não acontece. Concentrar-se exclusivamente na redução do déficit ou na redução dos custos são políticas erradas. Concentrar-se em empregos é a política correta, agora e no futuro. Investir no nosso futuro é a política correta – através da despesa pública que fortaleça a nossa economia e a nossa competitividade econômica, acompanhado de uma atitude responsável pela redução dos déficits orçamentários federais de longo prazo, enquanto a economia melhora.

Não tema. Nós podemos reverter a desigualdade. Os Estados Unidos continuam sendo uma das nações mais ricas do planeta. A noção de que não podemos consertar a nossa economia é simplesmente bobagem. Nós podemos se tivermos vontade política.

 Heather Boushey é Economista Senior no Centro para o Progresso Americano.

Tradução de Carolina Vital Menegaz Klein, Agente Fiscal do Tesouro do Estado e associada do Instituto Justiça Fiscal.

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Uma resposta

  1. Quem sabe agora voltamos a recuperar a noção de que NÃO É cada um buscando o melhor para si que conseguiremos o melhor para a coletividade!

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