Um Perigoso Momento na História Humana

José Joaquim Marchisio*

Vivemos um momento perigoso na história humana, pois como estabeleceu Karl Sagan, quando dividiu o tempo de existência da terra, desde a sua gênese até a contemporaneidade, estabelecendo uma equivalência a este tempo com o paralelo das 24 horas de um dia. E no seu comparativo, o homem surge neste cenário tão somente nos seus últimos 12 segundos. E, vejamos, em tão pouco tempo, coincidência ou não, é imputado ao homem a responsabilidade por um imenso descalabro. Verdade ou não, cada um faz o seu juízo, mas o certo é que, senão toda, uma parte significativa desta responsabilidade com certeza, é sua.

Neste sentido desejamos refletir com serenidade sobre esta pauta, trazendo à baila um conjunto de argumentos que precisam ser considerados e tratados de outra forma, razão pela qual, a técnica terá que ceder espaço ao bom senso. E a lógica pura e simples, precisará ceder lugar à sensibilidade de uma visão mais abrangente deste conjunto. É vero que estamos exaurindo o planeta pelo consumo exacerbado. Segundo alguns, a terra leva hoje 18 meses para se recuperar de 12 meses de produção, o que nos aponta para um déficit crescente, que somente na linha do tempo tenderá a se agravar cada vez mais.

De outra parte, muitas matérias primas, já se esgotaram, usamos substitutivos, alguns já estão na segunda geração. A madeira é um desses, várias espécies não as temos nem para remédio. As sementes foram tão manipuladas que do original não se tem mais registro, pois a transgenia modificou as suas essências. A fauna então, nem se fala, estamos consumindo desbragadamente que várias espécies já se extinguiram e outras tantas estão a caminho. Não se trata de um cenário catastrófico, ou talvez seja, mas a minha intenção não é o catastrofismo, mas a reflexão, profunda e necessária, diante de um quadro real. E, como acho que não somos avestruz, que escondendo a cabeça, acha que se escondeu, me atrevo à reflexão.

Vi recentemente no you tube, vide neste endereço eletrônico
http://revelatti.blogspot.com/2009/09/documentario-as-profecias-dos-indios.html, uma entrevista com um Cacique da Tribo Hopi, norte-americana, e este homem cujo nome não consegui obter, me impressionou intensamente com a sua visão singela e profunda. Diz ele que fora convidado para um evento empresarial nos EUA, e neste evento expusera: “Vocês estão chegando ao final da sua corrida, e na linha de chegada há um muro de pedra. E ninguém esta pulando de seu cavalo. Vocês não estão parando. Na verdade vocês estão acelerando”. Ao que lhe foi respondido: “Não podemos parar, pois os lucros não podem cair. Se eles caírem seremos demitidos”. O Cacique perguntou-lhe então: “E para quem é o lucro?” O lucro obviamente é para a empresa, para os acionistas. Surpreendentemente o Cacique lhe indaga: “O Senhor tem filhos?” Resposta: “Sim, dois. E netos? Sim, dois meninos. E a empresa para qual você põe a sua vida, será avó?” E desta vez não houve resposta. Então, o Cacique na entrevista faz uma primeira reflexão, não tive resposta porque fiz uma indagação de natureza moral e, infelizmente, as nossas atividades econômicas estão destituídas de valor moral. Vocês terão que ter uma sociedade moral, ou vocês não terão nenhuma. Pois tratam tudo como recurso: gente, plantas, animais, e esquecemos que somos uma família. Recurso é uma palavra que designa coisas, sem nenhum envolvimento ou compromisso. O planeta é um sistema vivo, infinito, se usado com equilíbrio e bom senso, mas acima de tudo com respeito, e eu vejo vocês usando mais rápido do que vocês o produzem. Vocês estão à frente desse desastre.

Achei fantástica esta visão, pois embrutecemos as pessoas, dilapidamos os nossos patrimônios naturais, e usamos a tecnologia para o refino do desperdício, pois quando criamos a técnica do descartável, amontoamos lixo às toneladas diariamente, e pior, apuramos a técnica de produção a tal ponto, que programamos a obsolescência das coisas, para que a sua vida útil fique pré-determinada, com prazo previamente fixado, ou seja, já sabemos, a priori, o quanto de lixo será despejado nos próximos 15, 20, 30 meses, tudo em nome de mais consumo, para gerar lucro e mais lucro. Se somarmos este conjunto, entenderemos o que o Cacique esta a nos dizer com a muralha, pois a cada dia colocamos nela uma nova fileira de tijolos, elevando-a constantemente, e, por conseguinte, aumentamos a nossa própria dificuldade.

Esta realidade marcante e triste somente se modificará se houver uma visão nova da nossa realidade. E talvez a visão dos índios, pela sua vivencia cordial com a natureza, possa nos indicar um caminho mais verdadeiro. Quem sabe? Claro, se a nossa arrogância permiti-lo.

Muito podemos, tanto para aperfeiçoar, como para degradar. É tempo de avaliarmos se o lucro trará a sustentabilidade do ambiente e da vida degradado… Dos rios mortos… Das espécies extintas…

Portanto, se de um lado o lucro nos enriquece, de outro em proporção muito maior, nos empobrece, pois dinheiro não comprará as espécies que não mais existem… Pensemos nisto, não tão somente como técnicos e profissionais apenas, mas antes de tudo como pessoas que somos, pais de família, líderes, ou pessoas que podem influenciar a mudança de rumo.

*Presidente da Socecon-RS

(Este tema foi abordado pelo autor durante a palestra que realizou na posse do economista Rafael Alves da Cunha como presidente do Sindicato dos Economistas do RS)

 

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